Imaginemos um quebra-cabeça; duas pessoas se unem para montá-lo. As peças sortidas despertam enorme curiosidade. É um desafio e uma aventura agrupá-las. Na medida em que a imagem vai se formando a dupla vai sentindo mais segurança e intimidade ao encaixá-las; visualizam um cenário: o amor. Mas faltam peças, o quebra-cabeça está incompleto.
A superfície de agrupamento tem fundo escuro. Os espaços vazios representam a sombra. A sombra é a ausência de luz necessária para uma flor desabrochar. Cultivar a sombra é nutrir o vazio que se precisa para florescer.
Só é possível florescer no vazio dando sentido à imaginação. A flor é a peça que falta para completar o cenário, mas obtê-la é vê-la murchar. Ela existe envolta de mistério, transgressão e perigo. Sem ela os ventos não teriam liberdade para circular no jardim. Embora seja tentador agrupá-la às outras peças, corre-se o risco de destruir todo resto.
Os ventos são o eixo de equilíbrio do nosso cenário. Permitem imaginá-lo completo e em outras estações. Conferem a incerteza necessária para que a flor exista e permaneça lá sem ser arrancada, temos a consciência de sua beleza e optamos por apreciá-la somente, validando e confirmando nossa escolha pela falta.
(...) Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente. (Clarice Lispector: O ovo e a galinha. In: Felicidade Clandestina, p. 55)





